terça-feira, 9 de junho de 2015

Papo com Werdum: Fedor, assédio, salário, revanche, Pride, família e Cain

Passa de meia-noite quando Fabrício Werdum entra acelerado por um hotel, em Porto Alegre. O gaúcho havia esquecido o carregador do celular com um amigo e estava preocupado com a bateria, quase no fim. O campeão do peso-pesado do UFC não desgruda do aparelho a não ser na hora de tomar um café no lobby.

Entre um gole e outro, Werdum não hesita em bater um papo com a reportagem do Combate.com. Descontraído, o lutador fala sobre períodos de sua vida pessoal e profissional. Ele falou sobre Cain Velásquez, adversário do UFC 188, no próximo dia 13, no México, reafirmou que almeja revanche com Cigano no futuro, recordou os eventos do Pride e elegeu Fedor Emelianenko como o melhor da história das artes marciais mistas.

- O Fedor ficou dez anos sem perder, ganhou dos melhores, não foi aquele cara que só ganhou de caras ruins. É um cara que tem que ser respeitado para sempre no MMA. Ele, com certeza, marcou, mas não foi valorizado o suficiente quando perdeu. Ele perdeu para mim, depois Pezão e Dan Henderson. O Fedor foi esquecido muito rápido, apesar de ter sido o melhor de todos os tempos.

Confira o bate-papo na íntegra:

Cinturão interino

É quando o campeão não comparece, é o que penso. Quando as pessoas falam que interino não vale... É claro que vale! Eu me preparei para o Velásquez, que não compareceu. Essa é a realidade.

Cain Velásquez

Um grande desafio na minha vida. É um cara que eu considero um dos melhores do mundo. É um dos maiores de todos os tempos.

Melhor lutador de todos os tempos

O Fedor ficou dez anos sem perder, ganhou dos melhores, não foi aquele cara que só ganhou de caras ruins. É um cara que tem que ser respeitado para sempre no MMA. Ele, com certeza, marcou, mas não foi valorizado o suficiente quando perdeu. Ele perdeu para mim, depois Pezão e Dan Henderson. O Fedor foi esquecido muito rápido, apesar de ter sido o melhor de todos os tempos.

Dana White

É um dos melhores homens de negócios do mundo. É um cara bem inteligente, que fez muito pelo esporte. Tem gente que diz que ele é mala, não sei o quê. Querendo ou não, ele fez acontecer. Se ele não existisse, o esporte não estaria tão avançado como hoje. Ele fez o UFC crescer muito.

Drogas recreativas

Drogas e esporte são mundos diferente. Um atleta tem que comer bem, dormir bastante. A droga estraga o corpo. Não discrimino ninguém, cada um faz o que quer, mas cada um no seu mundo. Atletas e drogas não tem nada a ver.

Jiu-Jítsu

Estilo de vida. Foi onde comecei, na verdade. Poucas pessoas conseguem me bater no chão por conta do meu jiu-jítsu, é de onde vem toda minha base para o MMA. Considero o jiu-jítsu a mãe das artes marciais. Claro que todas são boas, mas acho o jiu-jítsu fácil de se adaptar, de se aprender.
Ranking do UFC

Estou adorando (risos). Estou em primeiro como campeão interino dos pesados, então gosto muito. Subi no ranking peso por peso, estou em 14º, estou muito feliz. Gosto do ranking, mas não gosto de me colocar, dizer onde estou. Prefiro que o público decida.

Prós e contras de ser lutador

É o estilo de vida, que é muito bom. Conheço o mundo inteiro, por exemplo. E o carinho que as pessoas têm, que sentem vontade de tirar foto, a admiração que elas têm por você... Gosto desse contato. O pior de tudo é a derrota. Não gosto de perder nem no par ou ímpar (risos). Mas, por outro lado, a derrota ensina. Aprendi muito com a derrota para o Cigano. Ali foi o ponto que mudei e falei: quero ser um profissional de MMA.

Família

É tudo, a base, não deixa você desvirtuar, perder o foco. Quando você começa a ganhar dinheiro, é solteiro, perde um pouco o foco, e a família dá um objetivo para você lutar, se concentrar e pensar sempre nas suas filhas. Eu tenho duas, a Joana e a Julia. Acabei de comprar uma casa nos Estados Unidos pensando nelas, no conforto da minha família.

Wanderlei Silva

É o cara, um ídolo para mim. Eu sempre me inspirei na agressividade dele. Fez muito pelo esporte. É a mesma pessoa desde que começou. Ele fala contigo, com um cara na rua, com o Dana White e até com o presidente do país da mesma maneira. É um grande amigo. Sempre me deu muitos conselhos, me ajudou muito, não só nos treinamentos.

Pride

Um dos melhores eventos que já vi e participei. Era um espetáculo impressionante. Você olhava e não acreditava quanta gente tinha. O respeito do público japonês era o que mais me chamava a atenção. Com 40 mil pessoas na torcida, você conseguia ouvir o seu córner. Em termos de show, foi um dos melhores que vi na minha vida.

Junior Cigano

É uma meta que eu tenho, mas não para agora. É a única revanche que tenho vontade de fazer. Tive cinco derrotas na minha vida, todas por pontos, e o único nocaute foi para o Cigano. Quero cruzar com ele na minha vida de novo, em uma luta estando 100%. Sem desculpas, mas foi uma época decisiva na minha vida. Eu podia odiá-lo, mas não teria por quê. Quem errou fui eu. Tenho vontade de uma revanche no futuro.

Assédio

Eu me dou muito bem com o público, gosto bastante. As pessoas não sabem, mas somos pessoas normais também. Temos nossos momentos. Às vezes estamos irritados, às vezes estamos felizes. Às vezes você está brigado com a mulher e não consegue sorrir em uma foto. Depende do seu humor, da abordagem também. Mas gosto muito de estar com o público.

Arrependimento

Quando saí do UFC e perdi para o Cigano, foi uma época muito decisiva. A derrota foi difícil, mas decidi levar a sério. Eu me arrependo de não ter começado a treinar sério antes. Comecei 20 anos no jiu-jítsu e a ganhar dinheiro cedo. Eu pensava que eu era o cara, o f***, ninguém vai me ganhar. Achava que era invencível e não treinava o suficiente. Uma coisa que me lembro também é que fiquei longe da minha família. Não peguei a parte de bebê da Júlia. Eu estava em Curitiba sem treinar o suficiente para ter essa ausência. Eu me arrependo bastante de ter perdido a infância da minha filha.

Salário do UFC

Às vezes fico bem feliz, às vezes, não. Depende do contrato, acontece muito isso... Claro que não vou falar valores. Depende do lugar onde cada um está. Eu acho que mereço um pouquinho mais, na verdade (risos).

Aposentadoria

Eu tenho algumas filiais de academia, pretendo ficar no mundo da luta. Pode ser que eu seja professor. Tenho vontade de ter um negócio à parte do MMA com a minha mulher, um restaurante.... Pretendo ter academia e um centro de treinamento também. Se eu puder parar e não fazer nada, perfeito (risos). Mas acho que não vai dar, não.





Por: Marcelo Barone/Combate
Foto: UFC/Getty e Eduardo Deconto

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