terça-feira, 7 de outubro de 2014

"Virei um homem dentro do UFC", diz o ex-cortador de cana Lucas Mineiro

Pode alguém ter seu primeiro contato com as lutas num dia e, apenas três anos depois, entrar no UFC? Mais do que isso, pode essa mesma pessoa fazer sucesso no evento e passar a ser considerada uma grande promessa de seu país no esporte? É raro, muito raro, mas é possível. Para quem duvida, basta conhecer a história de Lucas Martins, o popular Lucas Mineiro.

O hoje peso-pena (até 66kg) do Ultimate trabalhou como cortador de cana, garçom e lavador de carro quando ainda morava em Montes Claros-MG. Aos 21 anos, foi passar um fim de ano na casa da irmã, em São Paulo, e aceitou o convite dela, aluna, para fazer sua primeira aula de artes marciais, um muay thai recreativo. Mineiro fez dois treinos e foi embora, mas gostou tanto que decidiu voltar para focar nisso. Mudou-se de vez para São Paulo, onde arrumou trabalho de instalador de rede de proteção para ajudar a se manter por lá. Mostrou qualidade e ganhou a atenção do mestre Diego Lima. Em meio às 36 lutas de muay thai que fez - venceu 34 -, ganhou de Lima o convite para ser professor de muay thai. Desde então, colocou seu foco 100% nas artes marciais mistas, e o resultado foi rápido. Ele fez 10 lutas de MMA só em 2012, venceu todas e foi contratado pelo UFC. Como foi possível? Mineiro relembra as dificuldades e explica o sucesso relâmpago:

- Acredito muito na mentalização positiva. Gosto muito de pensar no que vai acontecer lá na frente. Na minha última luta eu estava pensando no que ia falar para o entrevistador depois da vitória. E foi tudo exatamente o que aconteceu. Costumo pensar muito nisso. O Lima me fala que o professor pode ensinar a técnica, mas a vontade nasce com o cara. Graças a Deus nasci com essa vontade. O começo da minha carreira foi muito difícil, não tinha nem o que comer. Se eu pegasse o ônibus, não tinha dinheiro para comer à noite. Tinha que ir embora a pé para poder comer. Então, eu tinha muita vontade. Vi que conseguiria mudar minha vida e a da minha família por meio do esporte. Entrei de cara. Ficava na academia o dia inteiro, dormia no tatame. E quando chego aqui me sinto em casa. Quero só subir degrau por degrau, mais e mais - disse, em entrevista ao Combate.com na Chute Boxe Diego Lima, em São Paulo.

O que passei lá atrás não quero que nenhum aluno meu passe. Não ter luva, caneleira, usar coisa usada, não ter shorts, lutar sem protetor bucal... Nas minhas duas primeiras lutas de MMA eu peguei meu chinelo, cortei e enfiei na boca, porque não tinha protetor"
Lucas Mineiro





As vacas foram tão magras no início da carreira que o lutador chegou a usar um pedaço de chinelo como protetor bucal em seus dois primeiros combates:

- Hoje tenho alunos que passam o que passei, mas eu os ajudo. O que passei lá atrás não quero que nenhum aluno meu passe. Não ter luva, caneleira, usar coisa usada, não ter shorts, lutar sem protetor bucal... Nas minhas duas primeiras lutas de MMA eu peguei meu chinelo, cortei e enfiei na boca, porque não tinha protetor. O Lima deu minha primeira luva e minha primeira bandagem.

Por obra do destino, Lucas Mineiro também passou por dificuldades no UFC, mas por outro motivo: o peso. Ele foi chamado para estrear na organização como substituto de última hora, aceitou lutar numa categoria acima, a dos leves (até 70kg), e foi nocauteado por Edson Barboza - único revés nas 16 lutas do cartel. Mas deu a volta por cima e derrotou Jeremy Larsen na mesma moeda. Depois, como a divisão dos penas já contava com dois companheiros seus, Felipe Sertanejo e Charles do Bronx, decidiu baixar para os galos (até 61kg), onde finalizou Ramiro Hernandez. Por conta do grande sofrimento para bater o peso, preferiu voltar à sua categoria original mesmo assim, pediu ao UFC e conseguiu. Na "reestreia", nocauteou o promissor Alex White. Ganhando elogios de todos os lados, ele agora vive seu melhor momento.

- Estou muito feliz. Virei um homem dentro do UFC. Lutei de 70kg, depois de 61kg, e agora de 66kg. Minha cabeça abriu. Treinei bastante nesse tempo e também tive lesões. Estou na categoria em que sempre lutei, confortável, forte. Estou bem e feliz. Tirei um peso das costas com a última vitória, e agora é só felicidade - afirmou.

Sofrimento na categoria dos galos

Mineiro não esquece o que passou para bater os 61,2kg dos galos. O lutador, que costuma pesar 85kg quando não está em dieta, viveu dias bem difíceis.

- Não desejo isso para nenhum lutador, isso de baixar para a categoria onde nunca lutou. Foram dois meses só na salada, frango e água. Faltando três semanas para a luta, não aguentava subir as escadas da academia para treinar. Mas eu tinha que bater o peso. O Lima colocou na minha cabeça: "Se você não bater o peso, vai ser demitido. Temos que bater. É nossa responsabilidade". Deus me fez ter aquela vitória, porque depois da pesagem eu não estava 100% na luta. Eu estava uns 70% só. Mas deu tudo certo, graças a Deus. É a pior coisa que tem - declarou.

O próximo desafio de Lucas Mineiro é Darren Elkins no UFC Rio 5, que será realizado no dia 25 de outubro, no Rio de Janeiro. O americano, 13º colocado do ranking dos penas, é o adversário que Mineiro considera ideal para o momento que vive:

- Sei que sou um atleta novo e não estou preparado para pegar um top 5 ainda não. Tenho muito a aprender, tenho só três anos de MMA. Mas estou aí para lutar contra os melhores. Minha meta é ser top 10 da categoria no ano que vem.

O lutador é humilde, mas sonha alto. Sem dar uma previsão de tempo para chegar lá, ele deixa claro qual é o objetivo principal: o cinturão do Ultimate.

- Esse é meu sonho. Treino pelo cinturão, para ser campeão. Não tenho pressa, sou novo, mas quero o cinturão com certeza. Sou fã do José Aldo. Tomara que ele esteja com o cinturão no dia em que eu for lutar por ele. A gente treina para isso. Minha meta é essa. Não vou dar tempo nem nada, mas pode ter certeza de que um dia vou chegar lá - disse.

Difícil imaginar que alguém pudesse fazer suas primeiras quatro lutas de MMA sem nunca ter treinado jiu-jítsu. Mas Lucas Mineiro mais uma vez provou que é possível. Seria ele Iluminado por ter chegado tão longe?

- Pode ser que sim. É pouco tempo de treino, mas treinei muito. Fazia 10 treinos de muay thai com o Lima. Todo treino eu estava cansado, mas não parava. E comecei a treinar com Felipe Sertanejo, primeiro cara de quem me tornei fã. Já chorei na vitória e na derrota dele. Poder lutar no mesmo card que ele, em Belo Horizonte, foi um sonho. Então, se sou iluminado, agradeço a Deus. Vou continuar devagarzinho, fazendo meu trabalho.

Com muito esforço, Mineiro conseguiu dar uma vida melhor aos pais. E não se esquece de agradecê-los pelo que puderam lhe proporcionar antes disso. Mas a figura mais importante talvez tenha sido o treinador Diego Lima, que chegou a tirar dinheiro do próprio bolso para ajudá-lo.

- Graças a Deus hoje consigo viver do esporte, só treinar, comer e dormir. Consegui mudar a vida da minha família em Montes Claros. Hoje minha mãe tem a casa dela, o trabalho dela. Meu pai era camelô, vendia pururuca na igreja e hoje não precisa mais fazer isso. Ele tem a loja dele de carros, compra e vende esses carros. Tenho uma academia na Zona Norte de São Paulo. Só tenho a agradecer a todo mundo que acreditou em mim desde o começo. Ao Lima, meu empresário, amigo, mestre, à minha família, aos meus amigos e alunos. Vai mudar cada vez mais - encerrou.

Por: Ivan Raupp/Combate
Foto: UFC

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