terça-feira, 26 de agosto de 2014

"Tenho que me tornar melhor, mais completo", admite Junior Cigano

A mentalidade de concentrar o trabalho no que se tem de melhor ficou para trás. Com as duas derrotas dominantes para o campeão Cain Velásquez, o peso-pesado Junior Cigano aprendeu que era preciso ir além, incrementar o jogo, ter a maior evolução possível também nas demais áreas para, assim, tornar-se um lutador mais completo. Com esse novo pensamento, ele enfim conseguiu se desprender um pouco do boxe. Saiu de sua zona de conforto em Salvador e, ainda contando com o apoio de seu mestre Luiz Dórea, juntou-se à Nova União, no Rio de Janeiro, onde ganhou uma visão diferente do renomado Dedé Pederneiras.

- As coisas têm melhorado. Tenho aprendido uma nova forma de encarar as coisas, um novo método de treinamento e de ensino. Isso vai agregar muito ao meu estilo de luta. Uma coisa que está muito clara é que tenho que me tornar melhor, mais completo. Claro que vou priorizar o boxe, porque é uma coisa que realmente gosto de fazer, e acredito muito nas minhas mãos. Mas tenho que me tornar um lutador mais completo, preparado para lutar em qualquer área, tanto no chão, quanto derrubando, usando as quedas a meu favor e as defendendo também - disse, em entrevista ao Combate.com no CT de MMA do Corinthians, em São Paulo.

O que também estava faltando para Cigano, segundo o próprio, era melhorar a parte psicológica. Não no sentido de que fosse inconstante mentalmente, nada disso. O problema é que, segundo o próprio, faltava seguir uma estratégia de luta traçada de acordo com o adversário em vez de tentar resolver sempre com um nocaute ou uma finalização.

- Eu com certeza tenho condições de enfrentar qualquer um no mundo, mas acho que é mais a cabeça, o seu entender, o psicológico, do que o trabalho físico e a técnica. Sempre treinei wrestling, jiu-jítsu, boxe, muay thai, mas na hora das lutas eu priorizo o boxe. É uma coisa que acaba sendo natural. Então, a partir do momento em que eu conseguir colocar isso na minha cabeça, que eu preciso estar apto a usar qualquer arte marcial na hora da luta para buscar a vitória... Porque muitas vezes não é só nocaute e finalização que funcionam. Às vezes você tem que jogar para pontuar também.

Cigano disse ainda que seu head coach (treinador principal) hoje não é nem Dedé Pederneiras nem Luiz Dórea, e sim os dois, e que acha importante fazer mais lutas para botar em prática esse novo método de combate antes de ter a chance de encarar Velásquez novamente. E ele acredita no potencial do compatriota Fabricio Werdum na disputa de cinturão no UFC 180, dia 15 de novembro, exatamente contra Cain.

A seguir, veja a entrevista com Junior Cigano na íntegra:

Combate.com: Você recentemente quebrou o dedo da mão, depois machucou o joelho. Dá para dizer que está numa maré de azar?
Junior Cigano: Não diria maré de azar. Na verdade não cheguei a sofrer a lesão do joelho. Quando aconteceu a lesão da mão, e tive que desistir da luta (contra Miocic) para focar na recuperação, do nada o joelho começou a doer. Eu não estava treinando. Acho que a gente acaba convivendo com a dor e às vezes não consegue nem entender o que realmente está acontecendo. Quando parei para recuperar a mão, o joelho começou a doer. Foi meio estranho. Mas fiz os exames, não tem nada. É só a dor mesmo. O médico me recomendou muita fisioterapia, que ainda estou fazendo. Estou buscando a recuperação para ficar 100% novamente.

Hoje você está em quantos por cento?
Graças a Deus estou muito bem já. Faltam detalhes só. Estou perto dos 100% fisicamente.

Para quando você planeja seu retorno? Teremos card no Brasil em outubro, novembro e dezembro. Tem o card do México em novembro. Enfim...
Quero voltar o mais rápido possível, até porque em outubro vai fazer um ano que não luto. Isso tem me deixado maluco (risos). Amo fazer o que faço, e a gente faz isso para viver também, então quero voltar logo, até para me manter em dia nos treinamentos. Meu normal é treino e competição, então quero voltar ao normal o mais rápido possível. Estou vendo como as lesões estão respondendo. Correndo tudo bem, acho que já posso marcar minha próxima luta. Na melhor das expectativas, novembro seria uma data boa para mim. Quero muito lutar antes do final do ano. Novembro seria bem legal, talvez na segunda metade do mês.

A luta que todo mundo estava querendo ver no peso-pesado era você contra o Stipe Miocic. É essa a luta que você quer para o seu retorno?
Não escolho adversário, nunca escolhi nem vou escolher. Acho que a gente tem que lutar contra todos, e quero enfrentar sempre os melhores. Acho que o Miocic está vindo muito bem, vindo de grande vitórias, e acho que seria, sim, uma luta bem interessante para o público e para o próprio UFC. E para mim também. Ele é um cara que vem do wrestling, tem quedas boas, também prioriza o boxe. Eu já estava estudando o jogo dele. Seria uma luta muito boa, mas a gente tem outros atletas no UFC e, seja quem for, vou estar me preparando da melhor maneira possível.

O que mudou no Cigano desde que ele foi para a Nova União?
Depois que comecei a ter a ajuda do professor Dedé Pederneiras e do time da Nova União, acho que acabei agregando valores bem significativos à minha carreira. As coisas têm melhorado. Tenho aprendido uma nova forma de encarar as coisas, um novo método de treinamento e de ensino. Isso vai agregar muito ao meu estilo de luta. Uma coisa que está muito clara é que tenho que me tornar melhor, mais completo. Claro que vou priorizar o boxe, porque é uma coisa que realmente gosto de fazer, e acredito muito nas minhas mãos. Mas tenho que me tornar um lutador mais completo, preparado para lutar em qualquer área, tanto no chão, quanto derrubando, usando as quedas a meu favor e as defendendo também.

E é nisso que o Dedé tem te ajudado bastante?
O Dedé tem me ajudado bastante. Ele é um cara muito inteligente, não é à toa que concorre sempre nas eleições de melhor treinador do ano. O jeito de ele enxergar a luta é um jeito bem experiente e diferente. É difícil você alcançar isso. Acho que ele, junto do professor Dórea, vão fazer um trabalho bem legal e vão me deixar muito bem preparado para as minhas lutas.

Quem é seu head coach: Dedé, Dórea, ou os dois têm o mesmo peso?
Os dois ocupam a mesma função. Como tenho ficado mais no Rio de Janeiro, o Dedé tem assumido a maior parte de tudo, mas sempre numa comunicação boa com todos. O pessoal da Nova União é muito junto, unido. O Dedé tem passado tudo para eles também, e tudo tem funcionado de uma maneira legal. Eu tenho gostado.

Você enfrentou o Cain Velásquez três vezes. O que ele te acrescentou como lutador? Qual a importância que ele teve e ainda tem na sua carreira?
Uma importância enorme. Foi o atleta mais importante que já enfrentei até hoje. Eu o tomei como experiência e aprendizado. Na minha opinião, ele demonstrou muita inteligência nas lutas. O time dele estava muito empenhado. A gente pôde perceber que o treinador dele estava muito preocupado para ele não me dar distância, não me deixar usar o boxe de jeito nenhum, ficar colado o tempo todo. Isso me impossibilitou de estar usando meu boxe, que é minha arma mais forte. Ele acabou frustrando meus ataques. Não me senti mais confortável para atacá-lo. Acho que eles estudaram bastante meu jogo, o que eu poderia trazer de desafio para ele. Na primeira luta eu o nocauteei, e depois ele veio muito mais preparado e focado. Eu o admiro como atleta, é um cara que tem de ser respeitado. Ainda estou aprendendo muito. O meu objetivo hoje é superá-lo. Quero superar o campeão. Na atualidade ele é o campeão, então quero superá-lo. E mesmo não sendo pelo título, seja qual for o motivo pelo qual vai acontecer essa luta, quero, sim, estar lutando contra ele novamente. Com essa experiência que tenho ganhado, acho que vou me tornar um lutador melhor, mais experiente e, com tudo isso, mais forte.

Você já se considera pronto para enfrentár o Velásquez de novo? Ou isso ainda vai acontecer?
Eu com certeza tenho condições de enfrentar qualquer um no mundo, mas acho que é mais a cabeça, o seu entender, o psicológico, do que o trabalho físico e a técnica. Sempre treinei wrestling, jiu-jítsu, boxe, muay thai, mas na hora das lutas eu priorizo o boxe. É uma coisa que acaba sendo natural. Então, a partir do momento em que eu conseguir colocar isso na minha cabeça, que eu preciso estar apto a usar qualquer arte marcial na hora da luta para buscar a vitória... Porque muitas vezes não é só nocaute e finalização que funcionam. Às vezes você tem que jogar para pontuar também. Um dos maiores exemplos disso é o Georges St-Pierre. Normalmente as lutas dele seguiam todos os rounds, e ele é um cara muito inteligente. Ele fazia o que o outro não queria fazer. Se o cara queria boxear, ele queria o chão. Se o cara queria o chão, ele queria boxear, ficar em pé. Ou seja, é uma parte da estratégia bastante inteligente. Hoje o maior diferencial dos campeões está sendo isso, a inteligência na hora de lutar, a estratégia que estão trazendo para o octógono. Isso é uma colaboração muito grande do time também, pois ele acaba estudando muito o adversário e formulando uma estratégia que seja eficiente contra aquele determinado adversário. Você não tem que lutar igual contra todos.

Você acha importante fazer outras lutas antes de enfrentar o Velásquez de novo?
Com certeza. Não só para ganhar mais experiência, mas para ganhar na prática esse novo método que estou tentando adicionar ao meu repertório. E também para eu poder estar me qualificando novamente. Graças a Deus, pelos resultados que tive, acabei continuando como número 1 do ranking (de candidatos ao título) mesmo perdendo para o Velásquez. Hoje o Werdum passou à minha frente, mas sem muito sentido. Foi mais porque ele vai lutar pelo cinturão mesmo. Acho que tenho muito a agradecer a Deus por tudo que tem acontecido na minha vida. Espero estar aprendendo e evoluindo a cada dia que passa. Sei que, se o Velásquez ganhar, vou ter que fazer mais uma ou duas lutas para poder me qualificar a lutar com ele novamente. Mas não tenho medo de desafio. Estou aqui para enfrentar quem quer que seja até conseguir enfrentá-lo de novo.

Aproveitando que você falou dos campeões, quem você considera hoje o melhor lutador do mundo?
Quem eu considero hoje o melhor do mundo... Acho que o Velásquez e o Jon Jones brigam pela primeira posição. O Jon Jones é impressionante, é um fenômeno realmente. O Velásquez também, principalmente pelo condicionamento físico, que é incrível. O que ele consegue fazer como peso-pesado... Se apanhar cansa, bater cansa muito mais, e nas duas últimas lutas que a gente teve ele ficou cinco rounds batendo ali em cima, sem demonstrar cansaço. Isso é realmente extraordinário.





Um cara que você gostaria de enfrentar é o Overeem, certo? O Jon Jones se machucou recentemente num treino com ele, e não foi o primeiro, porque o holandês também já tinha machucado o Guto Inocente. O que você acha do Overeem?
Primeiro, te corrigindo na questão de enfrentar o Overeem, eu sinceramente não tenho vontade nenhuma de enfrentá-lo. Claro que, se o UFC disser que tenho de enfrentá-lo, ele vai ser o cara que quero enfrentar. Ele é um falastrão, gosta de polemizar as coisas, falar muita coisa e às vezes não fazer. Já marcaram duas vezes nossa luta, numa ele caiu no teste antidoping, na outra ele se machucou e não pôde aceitar. É um cara estranho. Ele é difícil, um bom lutador, não é à toa que conseguiu grandes vitórias na vida dele. Mas é um cara bastante polêmico e talvez até meio perdido na cabeça dele. Mas com certeza lesões acontecem no treinamento, e a gente não pode levar isso como maldade. Não sei exatamente o que aconteceu. Machucados acabam acontecendo, não à toa que machuquei num treino, onde os caras estavam me ajudando. Acho que pode ter acontecido a mesma coisa com o Jon Jones agora. De novo, não tenho realmente uma vontade de lutar contra o Overeem. Ele está sem nenhuma expressão agora, então não seria uma boa luta.

E teremos Velásquez contra Werdum em novembro. Quem você acha que vence e como vai ser a luta?
Acredito que será uma luta boa. Na minha opinião, o que o Werdum fez na última luta ele nunca tinha feito. Ele lutou muito bem. Lutou como nunca tinha lutado. E contra um cara dificílimo, que é o Travis Browne. (Browne) É um cara que impõe o jogo, bate forte, tem poder de nocaute e um ritmo bom de luta. Então, o que o Werdum fez naquela luta realmente me impressionou e me fez acreditar mais nele, acreditar que ele consegue ser campeão em cima do Velásquez. Claro que o Velásquez é favorito. Na minha opinião é bem favorito em qualquer luta, enfrentando qualquer peso-pesado de hoje em dia. Mas o Werdum tem, sim, chances de impor um jogo que possa dificultar. Tenho certeza que eles estão estudando bastante o Velásquez. No chão o Werdum é muito superior a ele, então não acho que o Velásquez vá derrubá-lo. O Velásquez vai tentar fazer mais ou menos o que fez comigo, manter na grade. Se for para o chão, o Velásquez não vai querer ficar ali trocando posição com o Werdum. Vai mandar levantar para de novo pressioná-lo contra a grade. Acredito que será uma luta muito boa. E lógico que vou torcer pelo Werdum. Como brasileiro, espero que esse cinturão volte para o Brasil.

Por Ivan Raupp e Diogo Venturelli/Combate
Foto: UFC e Divulgação

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